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Associação

Ao contrário do que muita gente julga, o desporto popular não surgiu em 1983. Na minha opinião, foi em 1961, através do futebol. Efectivamente, o Futebol Popular surgiu a partir dos torneios organizados pelo Varzim Sport Club. Recordo-me do primeiro em que, envergando a camisola representativa do Grupo de Jocistas, o disputei com as equipas do Sport da Póvoa, Terroso, Aver-o-Mar, Amorim, Beiriz, Aguçadoura, entre outros. Talvez por uma questão sentimental, considero este evento o princípio do “Inter-Freguesias” da época.

De 1976 a 1980, fui o monitor e coordenador nos concelhos da Póvoa de Varzim e Vila do Conde, dos denominados torneios de futebol popular “AMIZADE” e “BOLA DE NEVE”. Organizados pela Direcção Geral de Desportos e pela Associação de Futebol do Porto, tinham lugar nos campos do Varzim Sport Club (de treinos), Mosteiro de Santa Clara (Vila do Conde), Rio Ave Futebol Clube (campo da Avenida), Estádio Gomes de Amorim (actuais Piscinas Municipais), Parque de Jogos de Nova Sintra (actualmente pertença da Junta de Freguesia da Póvoa de Varzim), Espaço de Recreio (actual Escola Secundária Eça de Queiroz), Campo de Amorim (antigo), entre outros. Todos estes recintos desportivos, durante a realização dos supracitados torneios, foram ocupados por equipas representativas de algumas instituições e freguesias do nosso concelho: Zona Operária, Nova Sintra, Maconde, Penalves, “Limas Pereiras”, “Os Amigos”, Real Olímpico, Independentes de Barreiros, Rates, Amorim e Argivai. Perante tamanha actividade desportiva, atrevo-me a classificar estes torneios como uma espécie de Inter-Freguesias… em miniatura.

A Grande Festa do Desporto de Fim de Ano surgiu no mesmo período (1976 a 1980), para praticantes dos 6 aos 15 anos de idade, nas modalidades de Futebol (3 escalões), Andebol, Hóquei de 6, Basquetebol, Voleibol, Ténis de Mesa, Atletismo e Ciclismo. Este evento desportivo, coordenado por mim, era uma organização do Clube Desportivo da Póvoa, integrado nas comemorações do seu aniversário, e com o patrocínio da Câmara Municipal. Nesta festa, não foram esquecidos os miúdos do MAPADI, ao terem também a oportunidade de praticar algumas das modalidades citadas. De facto, era muito gratificante ver um pavilhão repleto de assistência, principalmente composta por familiares e amigos dos intervenientes, com a comoção a invadir-lhes o coração, ao verem os seus entes queridos num desempenho desportivo que, com toda a certeza, ficou gravado na memória de todos que a ele assistiram. Foi, sem qualquer dúvida, um acontecimento inédito na Póvoa de Varzim.

Não quero, ainda, deixar de realçar os Jogos Juvenis do Desportivo da Póvoa, que se realizaram de 1971 a 1973. Esta actividade desportiva, de grande impacto no país, foi pensada e organizada pelo saudoso Abílio Ferreira e infelizmente nunca mais se realizou.

Antes de me debruçar, mais concretamente, sobre o que este livro pretende recordar e perpetuar, os 25 anos do Campeonato Inter-Freguesias da Póvoa, não quero deixar de referir os vários Torneios de Futebol de Salão (Futsal), organizados por mim, que se realizaram no Pavilhão do Clube Desportivo da Póvoa, de 1975 a 1993, em diversos escalões: Veteranos, Seniores e Juvenis. A título de mera curiosidade, poderei formular a seguinte pergunta: Quem não se lembra da I Maratona Internacional de Futebol de Sala (24 horas seguidas), realizada a 17 e 18 de Julho de 1982, no Pavilhão do Ciclo Preparatório (EB 2,3 Flávio Gonçalves)? Foi a primeira do género realizada em Portugal com transmissão televisiva em directo, e comentada pelo conhecido profissional, Nuno Brás.

Depois de ter lembrado tempos idos, vou recordar o início do presente. O Inter-Freguesias da Póvoa de Varzim é a organização desportiva mais antiga sob a égide da Câmara Municipal da nossa cidade. Nasceu na época 1983/84, em parceria com as 12 Juntas de freguesia, com o propósito de fomentar o desporto popular e a consequente confraternização do próprio futebol. O início deu-se através do escalão sénior por, em princípio, ser o mais fácil para a “arrancada”, seguindo-se progressivamente outros escalões (juvenil, infantil, feminino e escolinhas), no sentido de aumentar a movimentação popular e desportiva, até conseguir ser a maior de todo o país, como é fácil constatar.

Decorrido o primeiro ano, a autarquia, em função do bem sucedido desempenho de todos os participantes durante a competição, pensou na sua continuidade, convidando um grupo de pessoas, conhecedoras de futebol, para formar uma Comissão Organizadora.

         Foi a partir desse convite que surgiu a primeira comissão para a época de 1984/85, constituída por António Pereira, Domingos Laúndos, Jorge Silva, Adelino Marinheiro, António Sá Moreira (já falecido) e António Fernando. Foi a estes elementos que o Presidente da Câmara dessa época, Dr. Manuel Vaz, deu posse e formalizou o evento como pertença da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, até à presente data.

O início não foi fácil. Os meios existentes, além de precários, eram insuficientes para a prática da modalidade. Muitos foram os casos caricatos que aconteceram – desde árbitros a exibirem o cartão amarelo ao público, a andarem 22 jogadores, literalmente, “atrás da bola” – o que, naturalmente, servia de gáudio aos espectadores minimamente conhecedores das regras do futebol.

Com o decorrer do tempo, ao verificar-se um aumento do número de jovens – lento, mas progressivo – a enveredar por “caminhos” menos recomendáveis, pensou a Comissão Organizadora, nesse mesmo ano (1984), numa competição para os mais novos. Nesse sentido, sugeriu às associações participantes a inscrição de equipas constituídas apenas por jovens. Receptivas à sugestão, as associações inscreveram equipas de Juvenis. Mais tarde, a Comissão Organizadora acabou por alargar esta competição a outros escalões. Infantis, Femininos e Escolinhas, foram os que se seguiram. Pela idade dos atletas nele inscritos, este último escalão foi e continua a ser o preferido dos espectadores.

A assistência nos jogos tem sido espectacular. Adeptos ferrenhos, uns mais que outros, emprestam o entusiasmo aos jogos, no apoio aos seus clubes, para que estes possuam um espírito sadio de “campeonite”. Naturalmente que num ou noutro jogo, o comportamento não é o mais salutar, mas tudo se controla. Neste aspecto, a acção dos dirigentes das associações tem sido exemplar, ao apaziguar os ânimos mais exaltados, através dos conselhos mais adequados à situação. Foram e continuam a ser estes homens que asseguram as condições mínimas para que os jogos se realizem em completa segurança e incutem a confiança aos árbitros, para os dirigir. É por esta razão que durante estes 25 anos de futebol popular, nunca foi necessária qualquer requisição de policiamento, para os muitos milhares de jogos que até hoje foram realizados. Por isso, é imperioso classificar esta conduta como uma lição de civismo, comparando-a a muitos outros eventos desportivos que proliferam por todo o país, e como uma coroa de glória para todos aqueles que, durante anos, se dedicaram a esta “carolice”, que é o Inter-Freguesias.

Para dar uma pálida ideia de como foram os primeiros anos desta organização, em virtude da falta de condições que existiam na altura, poderei dizer o seguinte: os equipamentos para o desporto rei, o futebol de 11, eram escassos e estavam em condições tão más que nem poderiam ser considerados como razoáveis; os atletas, convocados pelos respectivos clubes, tinham que se equipar no interior das viaturas que lhes serviam de transporte e no final de cada jogo, tinham de ir tomar banho a suas casas; os árbitros, salvo raras excepções, apresentavam-se nos campos já devidamente equipados para dirigir os jogos para os quais tinham sido nomeados (outros, apresentavam-se em campo vestidos com calças e com chave de parafusos nos bolsos). Com a preocupação de poderem cumprir os horários estabelecidos para os jogos, os atletas utilizavam o meio de transporte que no momento tinham à mão. Faziam-se deslocar de bicicleta, motorizada, automóvel, autocarro e alguns iam mesmo a pé. Para se equiparem, utilizavam as caixas das próprias carrinhas de transporte. Tudo isto, para todos, não foi fácil. Apesar de tudo, ninguém desistiu.

Com a persistência de dar continuidade ao que se começou e fazendo jus ao velho ditado popular “Quem anda por gosto não cansa”, a Comissão Organizadora foi lembrando às entidades competentes, da necessidade de proceder a algumas melhorias nos parcos equipamentos existentes e à construção de outros. Podemos hoje, com toda a certeza e satisfação, felicitar todas as Juntas de Freguesia envolvidas na árdua tarefa e no inestimável trabalho de colmatar a enorme lacuna que outrora existia em todas elas: a falta de um campo de futebol. Foi também a pensar no Campeonato Inter-Freguesias da Póvoa de Varzim, que a Câmara construiu o Complexo Desportivo Municipal, com a inclusão de vários campos de futebol, para que as várias equipas desta freguesia lá possam disputar os seus jogos e treinos.

Sempre sob a tutela da nossa autarquia, foi e continua a ser possível a realização do maior evento desportivo (futebol popular) do concelho e quiçá do país. Para se poder produzir uma afirmação deste calibre, existem números: os escalões atrás mencionados, são formados por 80 equipas, inscritas por um total de 19 associações do município da Póvoa de Varzim. Estas, através de Atletas, Dirigentes, Árbitros, Delegados, Técnicos e demais elementos da Organização, totalizam cerca de 3.800 participantes. Todas estas equipas, que disputam os jogos do campeonato todas as semanas, durante 10 meses, com a inclusão dos jogos da Taça e Super-Taça da Póvoa, das provas sob a responsabilidade da FFPN e Futsal Feminino, acabam por totalizar 3.250 jogos, durante uma época de competição.

As Comissões que anualmente têm a responsabilidade de organizar este evento, não se limitam apenas a colocar as pessoas a jogar à bola. Além de terem os atletas segurados e com a devida inspecção médica, através de um protocolo celebrado com uma companhia de seguros, a Comissão Organizadora tem vindo a desenvolver cursos de formação para treinadores e árbitros de futebol, bem como cursos elementares de socorrismo. Até ao momento, foram realizados três Cursos de Formação para treinadores do 1º Nível (44 alunos cada curso), sob a responsabilidade da Associação de Futebol do Porto. Apraz-nos ainda registar que, 90% dos formandos conseguiram o aproveitamento necessário e, por lhes terem sido atribuídos os respectivos diplomas, passaram a aplicar os conhecimentos adquiridos aos seus atletas, que actuam nos respectivos campeonatos do nosso concelho, conferindo uma maior qualidade à prova. Realizamos também dois cursos de arbitragem – um a nível oficial (ministrado na Póvoa de Varzim) e outro exclusivamente para árbitros do Inter-Freguesias – e todos os intervenientes obtiveram um aproveitamento excelente, o que lhes possibilitou uma maior e melhor interpretação e aplicação das Leis do Jogo. Para os massagistas, os dois cursos ministrados debruçaram-se, essencialmente, sobre primeiros-socorros, por se entender serem os mais necessários em caso de acidente. Pelo exposto, não é muito difícil perceber que uma organização desta natureza e com esta grandeza, não se limita apenas a colocar milhares de pessoas a jogar à bola. Há toda uma forma pedagógica e responsável de o fazer, sem esquecer o essencial: A DIGNIDADE.

António Fernandes Pereira